Criptomoedas ganham força em países emergentes, desafiando foco dos mercados tradicionais
A adoção das criptomoedas tem se concentrado principalmente nos Estados Unidos e na União Europeia, onde o debate gira em torno de clareza regulatória, ganhos especulativos e acesso institucional. No entanto, o futuro do uso das moedas digitais aponta para mercados emergentes como Lagos, Buenos Aires e Manila, onde a necessidade financeira impulsiona a popularização dessas tecnologias.
Segundo relatório recente da Chainalysis, a Índia lidera mundialmente em uso de ativos digitais pelo terceiro ano consecutivo, seguida de perto por Nigéria, Vietnã e Filipinas. Nessas regiões, o uso das criptomoedas não está ligado à especulação, mas sim à sobrevivência econômica e à utilidade financeira.
Casos como o da Argentina ilustram essa realidade: com inflação anual frequentemente acima de 100%, os argentinos usam stablecoins atreladas ao dólar não para investimento, mas para preservar valor e realizar pagamentos cotidianos como compras e aluguel. Na Nigéria, as criptomoedas são ferramentas importantes para comércio transfronteiriço e remessas, reduzindo custos elevados cobrados por serviços tradicionais, enquanto a África Subsaariana registra o maior crescimento anual de usuários cripto no mundo.
Apesar de debates no Ocidente concentrarem-se em fundos negociados em bolsa (ETFs) e disputas regulatórias, esses temas pouco impactam as necessidades de populações não bancarizadas ou trabalhadores informais em países emergentes, que demandam soluções financeiras práticas e acessíveis.
O mercado emergente dessas regiões representa um dos maiores potenciais de crescimento para a indústria cripto, mas ainda é pouco explorado por projetos e exchanges focados em mercados ocidentais consolidados.
Embora o capital institucional e a regulação continuem críticos para as criptomoedas, a verdadeira adoção mainstream está ligada à população comum que depende desses ativos para preservar poder de compra, realizar pagamentos e enviar recursos para familiares, em um contexto de alta volatilidade cambial e custos reduzidos de transações.
Em 2024, remessas internacionais para países de baixa e média renda ultrapassaram US$ 685 bilhões. Reduzir em apenas 1% as tarifas desses envios poderia injetar bilhões a mais diretamente nas mãos de quem mais precisa, algo que as criptomoedas já possibilitam, facilitando também a aceitação digital em milhares de estabelecimentos comerciais nas Filipinas.
Para avançar, a indústria cripto deve realinhar seus esforços, priorizando soluções simples, acessíveis e voltadas para os mercados emergentes, focando em infraestrutura móvel, baixos custos de remessa e educação financeira. O verdadeiro protagonismo da revolução das finanças digitais está nos usuários desses países, não nos investidores sofisticados dos centros financeiros tradicionais.
Negligenciar esses mercados não é apenas um erro estratégico, mas uma omissão diante de onde o impacto social e econômico das criptomoedas é mais urgente e transformador. A inovação real das finanças globais será construída onde as instituições financeiras são mais frágeis e a inclusão mais necessária — e é lá que as criptomoedas já funcionam na prática.



