Rotina Exaustiva e Pressões Aumentam Riscos à Saúde Mental dos Caminhoneiros no Brasil
A jornada de trabalho intensa, a pressão por prazos e o isolamento são elementos que marcam o cotidiano da maioria dos caminhoneiros no Brasil, reflexo que impacta severamente a saúde mental dessa categoria. Muitos profissionais acabam adoecendo em função dessas condições, segundo relatos e pesquisas recentes.
Emerson André, caminhoneiro autônomo com 16 anos na profissão, destaca o efeito do desgaste emocional e familiar da rotina nas estradas: “Tem muitos motoristas ficando doentes, porque o estresse do cotidiano, o trajeto se tornam cansativos, a família cobrando que você não está em casa, você perde muita coisa da sua família.”
A experiência de Daniel Francisco de Lima, conhecido como Del Caminhoneiro, que atua há 27 anos, corrobora a ideia de que o estresse é constante na profissão, embora o tempo de estrada ajude a desenvolver mecanismos para lidar com a tensão.
Envelhecimento da Categoria e Falta de Interesse dos Jovens
A saúde mental dos caminhoneiros é reconhecida como um problema estrutural na cadeia logística do transporte rodoviário, afirma o procurador do Trabalho da 24ª Região, Paulo Douglas de Moraes. Ele explica que a categoria está envelhecendo, com média de idade em 46 anos, e os jovens demonstram pouco interesse pela profissão, fenômeno conhecido como “apagão de motorista”.
Segundo Moraes, a principal barreira para a melhora das condições de trabalho está relacionada ao interesse econômico e político, que dificultam avanços, como a redução da jornada de trabalho.
Carga Horária Indefinida e Instabilidade Financeira
Pesquisa do Ministério Público do Trabalho (MPT) aponta que 43,7% dos caminhoneiros trabalham com carga horária indefinida, enquanto mais da metade recebe por comissão, criando insegurança financeira. Emerson André relata que, apesar da carteira assinada em alguns casos, a remuneração majoritariamente comissionada significa que sem trabalho não há ganho.
Além disso, 56% dos motoristas dirigem entre 9 e 16 horas diárias, e quase 25% ultrapassam as 13 horas de jornada, sendo que 43,7% têm intervalos entre jornadas inferiores a oito horas, contrariando a legislação que prevê 11 horas de descanso a cada 24 horas de trabalho.
Uso de Drogas e Riscos à Segurança
Levantamento do MPT realizado no final de 2023 revela que cerca de 27% dos caminhoneiros utilizam drogas para suportar jornadas superiores a 12 horas. A Polícia Rodoviária Federal confirma o uso frequente de substâncias como rebites e cocaína para enfrentar o cansaço nas estradas.
Vulnerabilidade Emocional e Doenças Mentais
A pesquisadora Michelle Engers Taube, doutora em psicologia, indica que caminhoneiros com jornadas superiores a 12 horas têm três vezes mais chances de desenvolver transtornos mentais comuns, como ansiedade, depressão e estresse, agravados pelo afastamento prolongado da família.
Dados da plataforma Moodar revelam que 20% dos profissionais do setor de frotas e logística apresentam algum grau de vulnerabilidade emocional.
Para o psiquiatra Alcides Trentin Junior, representante da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), o acompanhamento periódico dos caminhoneiros é fundamental, pois ansiedade e depressão aumentam o risco de acidentes nas estradas.
Normas de Saúde e Segurança no Trabalho
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), atualizada em maio, estabelece que as empresas devem garantir ambientes psicologicamente saudáveis, com prazo de um ano para adaptação. A neurocientista Barbara Lippi, fundadora da Moodar, explica que a norma obriga a identificação dos riscos psicossociais, incluindo estresse, fadiga e sobrecarga, que podem afetar o bem-estar coletivo dos trabalhadores.
Paulo Douglas de Moraes ressalta que o transporte rodoviário é o setor com o maior número de acidentes de trabalho fatais no Brasil e que o Ministério Público do Trabalho intensificará ações para melhorar a saúde mental nesse segmento.
Desafios Práticos e Propostas para Melhorias
Alan Medeiros, da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, defende a implantação de mais pontos de parada nas rodovias para oferecer descanso apropriado. Ele ressalta que os postos de combustíveis frequentemente estão lotados ou impõem condições que dificultam a parada do caminhoneiro. Além disso, há riscos de violência e roubo quando o profissional opta por dormir no caminhão.
Del Caminhoneiro destaca a necessidade de infraestrutura adequada para cumprimento das leis trabalhistas, apontando a carência de estradas em boas condições e locais seguros para descanso.
Estado e Sociedade Frente ao Desafio
O psiquiatra Alcides Trentin Junior enfatiza que a profissão de caminhoneiro deve ser reconhecida como penosa devido ao estresse físico, químico, biológico e mental imposto pelas longas jornadas. Ele destaca a responsabilidade do Estado em garantir estradas seguras e políticas públicas eficazes para a saúde e segurança dos motoristas.
O reconhecimento da importância da saúde mental e das condições de trabalho no transporte rodoviário marca um avanço essencial para a segurança nas rodovias e o bem-estar dos profissionais que são essenciais para o funcionamento da economia brasileira.



