China utiliza controle sobre minerais de terras raras para pressionar Estados Unidos, alerta ex-secretário de Comércio dos EUA
O controle rigoroso da China sobre minerais essenciais para a alta tecnologia americana deixou de ser uma preocupação apenas geopolítica e já representa uma ameaça econômica concreta para as cadeias de suprimentos dos Estados Unidos. Essa avaliação foi feita por Wilbur Ross, ex-secretário de Comércio no governo Donald Trump, que alerta para o uso estratégico das terras raras pelo governo chinês como ferramenta de pressão.
Pequim domina cerca de 90% da capacidade global de refino e processamento desses minerais, embora não controle a maioria das minas. As terras raras, que incluem elementos como o neodímio, são vitais para a fabricação de veículos elétricos, ímãs, turbinas eólicas, semicondutores de ponta, além de equipamentos militares avançados, como caças F-35 e mísseis guiados.
Ross aponta que a vulnerabilidade dos EUA foi ampliada nos últimos anos e tornou-se evidente após a China implementar novos requisitos de licenciamento para exportação, mecanismo que ele classifica como um “sistema disfarçado de racionamento”. Segundo ele, esses controles podem atrasar deliberadamente aprovações, permitindo à China restringir o fornecimento para fabricantes americanos sem violar acordos comerciais.
Risco de paralisações na indústria americana
O ex-secretário alerta que a pressão sobre o fornecimento de terras raras pode impactar a indústria dos EUA em um prazo de seis a doze meses caso as tensões comerciais persistam. Embora algumas montadoras tenham estoques estratégicos, eles são insuficientes para suprir a demanda a longo prazo. Empresas como a Ford já manifestaram publicamente que poderão paralisar fábricas caso o fornecimento se agrave.
Terras raras são componentes fundamentais para semicondutores avançados, presentes em aproximadamente 400 a 500 chips por veículo, número que aumenta em veículos elétricos. Essa dependência torna os minerais um ponto crítico para a continuidade tanto da indústria automotiva quanto das capacidades de defesa nacional e da transição energética limpa.
Desconfiança sobre negociações com a China
Quanto à possibilidade de um acordo comercial, Ross se mostra cético, afirmando que Pequim não demonstra urgência em negociar, aproveitando-se politicamente do discurso que posiciona os EUA como agressores. Segundo ele, anos de negociações sob as administrações Trump e Biden não produziram avanços significativos.
Escalada nas restrições pode aumentar tensões
A introdução de maiores restrições às exportações chinesas de chips avançados de inteligência artificial, discutida por legisladores americanos, traz o risco de uma escalada dramática nas tensões. Ross alerta que um embargo severo poderia ser interpretado como um ato de guerra, podendo provocar represálias chinesas, como o bloqueio de Taiwan — cuja Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) é responsável por mais de 90% da produção global dos chips mais avançados.
Consequências para o mercado global
Uma eventual interrupção no fornecimento de chips devido a conflitos geopolíticos paralisaria o mercado global de tecnologia, com efeitos severos sobre sistemas de defesa, inteligência artificial e outros setores críticos. Ross qualifica tal cenário como “catastrófico”.
Resposta dos EUA e perspectiva de curto prazo
Embora os Estados Unidos e a Europa estejam investindo na construção de plantas domésticas para processamento dessas matérias-primas, Ross ressalta que essas instalações não estarão operacionais a tempo de mitigar os riscos iminentes, enquanto a China já atua imediatamente para maximizar sua vantagem.
“Temos um desencontro de tempo”, conclui. “A China está agindo agora.”



