Dermatologia para pele negra ganha espaço no Brasil e melhora atendimento especializado
O médico Thales de Oliveira Rios enfrentava problemas de oleosidade e acne desde a adolescência e, apesar de vários tratamentos, não obtinha melhora satisfatória, especialmente nas manchas deixadas pelas espinhas. A situação mudou após um convite de um colega dermatologista para um tratamento adequado ao seu tipo de pele.
“Com o tratamento direcionado para a minha pele, os produtos certos para clarear e o protetor solar apropriado, em poucos meses houve uma melhoria significativa”, relatou Thales. Ele reforça que, até então, desconhecia a importância de considerar a cor da pele durante os tratamentos.
Thales é negro e lembra que, na primeira consulta, viu que a apresentação clínica das lesões de pele varia conforme o tom da pele — aspecto pouco abordado nos cursos de medicina até recentemente. O colega dele, Cauê Cedar, chefe do Ambulatório de Pele Negra do Hospital Universitário Pedro Ernesto, dedica-se a estudar as necessidades específicas da população preta e parda, que compõe a maioria do Brasil.
Cedar explica que os materiais acadêmicos e os treinamentos médicos são majoritariamente focados em peles claras, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento adequados para pacientes negros. Ele destaca características específicas da pele negra, como maior propensão a manchas e cicatrizes queloides, além dos cuidados com cabelos cacheados e crespos, temas pouco abordados na formação tradicional.
O especialista também salienta que a indústria dermatológica demorou a reconhecer a diversidade de peles na produção de cosméticos, como protetores solares. “Protetores solares com cor raramente contemplavam as tonalidades mais escuras, enquanto os sem cor deixavam um aspecto esbranquiçado na pele negra, o que reduz a adesão ao uso. Recentemente, porém, a indústria tem desenvolvido produtos mais inclusivos”, afirma.
Avanços no reconhecimento da dermatologia étnica
Cauê Cedar e outros profissionais negros têm impulsionado a inclusão da dermatologia para peles negras no meio acadêmico. Em 2024, pela primeira vez, o Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia dedicou uma atividade exclusiva aos cuidados com pele negra. Além disso, a regional do Rio de Janeiro da entidade criou o Departamento de Pele Étnica, com Cedar como um dos coordenadores.
Regina Schechtman, presidente da regional do Rio de Janeiro, destaca que o departamento visa ampliar o conhecimento e aprimorar o atendimento a grupos diversos, incluindo indígenas, orientais e negros. “Todo profissional de saúde deve incorporar esse conhecimento em sua prática, pois a interpretação de exames, como a dermatoscopia, varia conforme o tom da pele”, explica.
Schechtman também chama atenção para a importância da proteção solar em todas as peles. “Embora o risco de câncer de pele seja maior em pessoas de pele clara, isso não exclui a população negra da necessidade de cuidado com a exposição ao sol e os danos da radiação ultravioleta.”
Esses avanços refletem uma transformação na dermatologia brasileira, que caminha para oferecer um atendimento mais inclusivo e eficaz, respeitando a diversidade da população.



