Milei freia ajuste fiscal após derrota eleitoral e anuncia aumento de gastos sociais para 2026
O presidente argentino Javier Milei anunciou, nesta segunda-feira (25), um aumento dos gastos públicos em aposentadorias, saúde e educação para 2026, após sofrer derrota eleitoral na Província de Buenos Aires e a 40 dias das eleições legislativas nacionais que prometem reconfigurar o Congresso. O orçamento prevê crescimento econômico e manutenção do equilíbrio fiscal, mas o cenário político e econômico ainda é desafiador.
Ajuste fiscal revisado após derrota política
Após quase dois anos de um rigoroso ajuste fiscal que reduziu o déficit e controlou a inflação, Milei reconheceu limites à austeridade. No Congresso, o presidente afirmou que o pior já passou e anunciou que os gastos com aposentadorias subirão 5%, com saúde 17% e com educação 8% acima da inflação em 2026. O auxílio para pessoas com deficiência também terá aumento real de 5%. O presidente manteve o compromisso com o equilíbrio fiscal, definido como pedra angular de sua gestão, embora com um discurso mais moderado, reconhecendo a necessidade de ajuste.
Impacto no mercado e no cenário econômico
A derrota do partido de Milei, A Liberdade Avança, nas eleições da Província de Buenos Aires no início do mês refletiu-se em queda das ações argentinas na Bolsa de Buenos Aires e em Wall Street, além de alta na cotação do dólar e aumento do risco país. O orçamento de 2026 projeta crescimento do PIB de 5%, inflação anual de 10,1%, superávit primário de 1,4% do PIB e dólar médio a 1.423 pesos, valor abaixo da cotação atual.
No entanto, a Casa Rosada ainda tem dificuldade para aprovar o orçamento no Congresso, o que tem levado ao uso de recursos discricionários e prorrogação do orçamento de 2023, defasado frente à inflação acumulada de 117,8% em 2024 e 19,5% nos primeiros oito meses de 2025.
Análise e desafios futuros
Especialistas destacam que o aumento dos gastos acima da inflação coloca pressão sobre o compromisso de equilíbrio fiscal. Segundo Juan Luis Bour, diretor da Fundação de Pesquisas Econômicas Latino-Americanas (Fiel), caso não haja recursos suficientes, cortes em outras áreas serão necessários para manter as contas em ordem.
Politicamente, o cenário permanece turbulento. O governador peronista da Província de Buenos Aires, Axel Kicillof, criticou Milei por vender “ilusões” eleitorais e atingir grupos vulneráveis com o ajuste. Além disso, a confiança no governo já demonstra queda significativa nos indicadores, agravada por um recente escândalo de corrupção envolvendo a irmã do presidente. A coalizão governista enfrenta desgaste tanto pela derrota nas urnas quanto pelas controvérsias internas.
Milei chega, assim, a um ponto crítico entre manter o controle fiscal e responder às pressões políticas e sociais, em um ano decisivo para a definição do rumo da Argentina.



