Boom global de data centers alimenta preocupações ambientais e sociais
Os Estados Unidos lideram um crescimento acelerado na construção de data centers para suportar avanços em inteligência artificial, com investimentos bilionários de empresas como OpenAI, Amazon, Google e Microsoft. Contudo, o fenômeno não está restrito ao país e se expande globalmente, com quase 60% dos maiores data centers localizados fora dos EUA, segundo estudo do Synergy Research Group. Atualmente, pelo menos 575 projetos estão em desenvolvimento ao redor do mundo, envolvendo companhias como Tencent, Meta e Alibaba.
Estas instalações demandam grandes volumes de energia elétrica e água para resfriamento, provocando impactos em diversos países. Na Irlanda, por exemplo, data centers consomem mais de 20% da eletricidade nacional. No Chile, há risco de esgotamento de aquíferos, enquanto na África do Sul, a carga excessiva sobre a rede elétrica já deficitária intensifica apagões frequentes. Brasil, Reino Unido, Índia, Malásia, Países Baixos, Singapura e Espanha também enfrentam desafios semelhantes.
A falta de transparência preocupa especialistas, já que empresas frequentemente utilizam subsidiárias e prestadores de serviço para ocultar a escala do consumo de recursos. Governos, ávidos por atrair investimentos em inteligência artificial, oferecem incentivos fiscais, terrenos baratos e adotam regulações brandas, o que contribui para um cenário de baixa fiscalização.
Empresas reforçam que a expansão dos data centers gera empregos e investimentos econômicos, além de afirmar esforços para reduzir a pegada ambiental, com iniciativas de geração própria de energia e reciclagem de água. A Microsoft, por exemplo, nega que seus data centers no centro do México tenham causado problemas no fornecimento de energia ou água, destacando que sua carga elétrica equivale ao consumo anual de aproximadamente 50 mil residências.
Entretanto, especialistas alertam que a construção em regiões com redes elétricas instáveis e recursos hídricos escassos sobrecarrega sistemas já frágeis, criando riscos de efeitos em cascata. Moradores e organizações ambientais se mobilizam globalmente por maior supervisão e transparência. Na Irlanda, autoridades limitaram novos projetos em Dublin por risco energético. No Chile, protestos levaram o Google a abandonar um projeto que ameaçava reservas de água, e nos Países Baixos algumas construções foram suspensas por questões ambientais.
Na cidade mexicana de Querétaro, onde se situam cerca de 110 data centers, comunidades locais enfrentam escassez prolongada de água e frequentes apagões desde a chegada dessas instalações. Problemas como surto de hepatite em comunidades próximas evidenciam o impacto social da falta de infraestrutura adequada. Moradores relatam aumento de custos domésticos decorrentes da necessidade de contratar caminhões-pipa e perdas por alimentos estragados durante cortes de energia.
Ambientalistas destacam que o crescimento acelerado dos data centers representa uma crise ambiental e social, com previsões de que o consumo global desses centros de dados será equivalente ao da Índia até 2035. Grupos ao redor do mundo trocam informações e estratégias para pressionar governos e empresas, buscando políticas mais sustentáveis e responsáveis.
Enquanto isso, governos adotam políticas acolhedoras para atrair o setor, mesmo diante dos desafios apresentados. No México, planos ambiciosos preveem quadruplicar o uso de eletricidade dos data centers nos próximos cinco anos, enquanto acordos de sigilo dificultam o acesso da população a informações sobre esses empreendimentos. As contradições entre o progresso tecnológico e suas consequências locais evidenciam a necessidade de um debate mais amplo e regulado sobre o desenvolvimento do setor.



