CEOs de Grandes Varejistas Reagem com Cautela à Escalada da Guerra Comercial dos EUA
O ex-CEO da Sears Canada, Mark Cohen, afirmou que o ambiente corporativo americano vive um momento de grande apreensão diante da intensificação da guerra comercial conduzida pelo presidente Donald Trump. Segundo ele, os principais executivos do varejo evitam se manifestar publicamente por receio de retaliações, apesar da pressão crescente para encontrar soluções diante dos impactos econômicos.
Cohen destacou que, desde a primavera e verão, varejistas adotaram estratégias como o estoque antecipado de produtos e a redução da qualidade para manter preços baixos, o que contribuiu para um bom desempenho na temporada de volta às aulas. Contudo, ele alertou que esta dinâmica agora mudou, com os produtos já incorporando múltiplas tarifas que oneram significativamente os custos.
Embora grandes empresas como Walmart consigam absorver o impacto e manter seus estoques e preços competitivos, Cohen classificou a situação para as companhias de pequeno e médio porte como uma “crise mortal comparável à covid-19”. Ele considerou as tarifas uma “catástrofe personificada” e uma “bomba-relógio” para a economia dos EUA, causada pela complexidade das negociações e ajustes tarifários iniciados por Trump, que afetam toda a cadeia de suprimentos.
De acordo com Cohen, a natureza das tarifas — que incidem antes mesmo da chegada dos produtos ao mercado — obriga empresas a adiantarem pagamentos à alfândega, gerando uma crise de liquidez para milhares de importadores menores. Grandes varejistas também começam a sentir os efeitos, como mostrou o recente aumento de US$ 90 em dois meses no preço de um conjunto de quarto pela Ikea, tradicionalmente conhecida por manter preços baixos.
O impacto das tarifas já reflete no bolso dos consumidores. Estimativas da S&P indicam que as empresas enfrentarão US$ 1,2 trilhão em custos adicionais este ano, dos quais US$ 907 bilhões recairão sobre grandes varejistas. Desse montante, dois terços correspondem a repasses diretos ao consumidor por meio de preços elevados.
Cohen criticou a postura dos CEOs do setor, considerando “covardia” a falta de ação mais contundente para pressionar contra as tarifas. Ele defende que esses líderes deveriam envolver-se ativamente em esforços políticos para interromper a sequência de aumentos, sob risco de provocar uma recessão, diante do ciclo de retaliações que inclui medidas da China, Canadá e União Europeia.
O especialista alertou que o endurecimento da guerra comercial, combinado à inflação, problemas na cadeia de suprimentos e recentes choques no mercado de trabalho, pode resultar em desaceleração econômica, demissões e diminuição da demanda, afetando especialmente os trabalhadores americanos, a maioria dos quais vive com salários apertados.
Para Cohen, o silêncio da comunidade empresarial é preocupante e aponta que a situação da Ikea pode representar um alerta para todo o setor varejista. Ele ressalta que estratégias discretas de lobby provavelmente não serão suficientes para reverter a atual trajetória das políticas tarifárias dos Estados Unidos.



