Desmatamento para cultivo de café prejudica chuvas e ameaça produção no Brasil
Um novo relatório da organização Coffee Watch aponta que o desmatamento para expansão das plantações de café no cinturão cafeeiro do sudeste do Brasil tem contribuído para a redução das chuvas na região, afetando diretamente a produtividade das lavouras. O estudo relaciona a derrubada de florestas ao declínio dos índices pluviométricos, resultando em falhas nas colheitas, menor produção e, consequentemente, aumento dos preços para o consumidor.
Segundo a diretora da Coffee Watch, Etelle Higonnet, a prática atual de desmatamento para o cultivo do café é insustentável e pode levar ao colapso da produção no futuro. Ela destaca que a redução das chuvas, agravada pela perda de cobertura florestal, compromete a continuidade do cultivo mesmo com a expansão das áreas agrícolas.
O relatório enfatiza que o café é uma cultura altamente sensível aos padrões de chuva, com baixa resiliência à seca. A seca histórica de 2014 no Brasil marcou o início de um período em que a irregularidade das chuvas se tornou quase constante, prejudicando o desenvolvimento do café. Isso é corroborado por um estudo recente publicado na revista Nature Communications, que identificou uma queda de até 75% nas chuvas na Amazônia brasileira devido ao desmatamento.
Os impactos podem ser observados no aumento da escassez do produto e na volatilidade dos preços globais, especialmente após a seca intensa de 2024. A Coffee Watch alerta que, se os déficits pluviométricos persistirem até 2050, grande parte do cinturão cafeeiro brasileiro se tornará menos produtivo, o que poderá resultar em preços extremos no mercado internacional.
Além do Brasil, outros países produtores enfrentam desafios semelhantes. A expansão agrícola ligada a atividades como pecuária e cultivo de soja também contribui significativamente para o desmatamento e suas consequências climáticas.
Em resposta às preocupações globais sobre o impacto ambiental da cadeia produtiva, a União Europeia aprovou em 2023 uma legislação que exige comprovação da origem sustentável de produtos como café, madeira, soja e gado, proibindo a comercialização de itens vinculados a áreas desmatadas recentemente. O Brasil tem manifestado oposição a esta lei, classificando-a como punitiva e desrespeitosa à soberania nacional, e pede diálogo para criar mecanismos financeiros de compensação para países em desenvolvimento que protegem suas florestas.
A controvérsia sobre a regulamentação aumenta à medida que a UE decide implementar a lei em etapas, após um pedido inicial de adiamento, com discussões ainda em andamento no Parlamento Europeu. Enquanto isso, o Brasil se prepara para sediar a conferência climática anual das Nações Unidas, buscando fortalecer sua posição ambiental diante dos novos desafios políticos e ambientais.
A continuidade do modelo atual de expansão agrícola baseada no desmatamento representa um risco estrutural para a produção de café no maior produtor mundial, que depende de condições climáticas estáveis para manter sua competitividade no mercado global.



