Banco do Brasil endurece concessão de crédito ao agronegócio diante de inadimplência crescente
O Banco do Brasil (BBAS3), principal financiador do agronegócio brasileiro, anunciou que poderá suspender a concessão de novos empréstimos a produtores rurais que recorrem à recuperação judicial, medida em resposta à alta dos calotes no setor. Felipe Prince, diretor de riscos da instituição, destacou que produtores em recuperação judicial “não terão crédito hoje, amanhã nem nunca mais”, alertando para o impacto dessa prática na continuidade das atividades agrícolas.
A mudança na política de crédito inclui requisitos mais rigorosos para garantias e prazos de pagamento acelerados. Essa postura mais restritiva ocorre após uma decisão judicial que ampliou o direito de produtores individuais solicitarem proteção contra credores, e em meio a resultados financeiros desfavoráveis do banco, que registrou no segundo trimestre o menor lucro em quase cinco anos.
Dados do Banco do Brasil revelam que R$ 5,4 bilhões em empréstimos estão em atraso devido a pedidos de recuperação judicial de 808 produtores, entre um total de cerca de 1 milhão de clientes agropecuários, com uma carteira de crédito de R$ 404,9 bilhões em junho. A inadimplência total do setor rural subiu para 3,5% no mesmo mês, aumento de 2,2 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Segundo Prince, 75% dos produtores inadimplentes enfrentam essa situação pela primeira vez, o que indica uma transformação no comportamento do setor. Além disso, o banco passará a exigir garantias em regime de alienação fiduciária, modalidade que assegura maior controle sobre os bens dados como garantia, em substituição à hipoteca, o que eleva o custo do crédito para os agricultores.
O Banco do Brasil também agilizou seus processos internos para cobrança e judicialização de dívidas, reduzindo o tempo para contato após atraso de 30 para 5 dias e o prazo para ação judicial de até 180 para 30 dias. A instituição adotou ainda inteligência artificial para avaliar o perfil dos clientes e orientar decisões sobre concessão e renegociação de crédito.
Apesar das dificuldades, a instituição reforça que está aberta à renegociação de dívidas, exceto para produtores que entrem com pedidos de recuperação judicial. O endurecimento nas políticas de crédito reflete o contexto desafiador do agronegócio, marcado pela queda dos preços das commodities, elevação das taxas de juros e impactos climáticos.
Analistas do mercado esperam que o Banco do Brasil apresente resultados desfavoráveis no terceiro trimestre, com o desempenho do setor rural influenciando significativamente seus indicadores financeiros. Um programa governamental de renegociação de dívidas, iniciado em outubro, ainda não reflete nos resultados, mas poderá ser um indicador relevante para o futuro da carteira agrícola.
O cenário atual exige uma adaptação tanto dos produtores quanto do Banco do Brasil, que busca equilibrar o suporte ao setor com a necessidade de mitigar riscos financeiros crescentes.



