Programa Agora Tem Especialistas aprova medida provisória para reduzir filas no SUS
Desde a infância, Regiane Araújo Pacheco, artesã de 40 anos natural de Ipupiara, no interior da Bahia, enfrentou dores intensas nos joelhos e quadril, sintomas que levaram anos até o diagnóstico correto de artrite reumatoide infantil e depois lúpus. Sua trajetória, marcada por múltiplas consultas e longas viagens para encontrar especialistas, ilustra a chamada "jornada do paciente", um desafio ainda vigente no sistema público de saúde brasileiro.
O presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), José Eduardo Martinez, destaca que a principal dificuldade está em encurtar essa jornada, evitando que pacientes percorram diversos profissionais antes de chegar ao diagnóstico correto. "Antes do especialista, o paciente enfrenta um longo trajeto com médicos que não suspeitam ou têm dificuldade para confirmar o diagnóstico", afirma.
Com o objetivo de melhorar o acesso ao atendimento especializado no Sistema Único de Saúde (SUS), o governo federal criou o programa Agora Tem Especialistas. A iniciativa, implantada em parceria com estados e municípios, visa ampliar a oferta de serviços especializados nas áreas de oncologia, ortopedia, ginecologia, cardiologia, oftalmologia e otorrinolaringologia, reduzindo filas para consultas, exames e cirurgias.
Na última quarta-feira (24), o Congresso Nacional aprovou a medida provisória que institui o programa, com ampla maioria na Câmara dos Deputados e aprovação unânime no Senado. O texto segue agora para sanção presidencial. Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a aprovação representa um avanço fundamental para garantir mais agilidade e qualidade no atendimento especializado, especialmente em regiões onde há escassez desses profissionais.
Apesar dos avanços, especialistas ressaltam a necessidade de fortalecer a atenção básica para que o acesso ao cuidado inicial seja mais eficaz. Segundo Martinez, melhorar a capacitação dos médicos generalistas permitiria uma triagem mais eficiente, desafogando os níveis secundário e terciário e acelerando o encaminhamento adequado dos casos mais complexos.
O reumatologista Valderilio Azevedo, também da SBR, reforça que muitas doenças reumáticas podem ser identificadas e tratadas precocemente na atenção básica, reduzindo a demanda por especialistas. Da mesma forma, a diretora científica da SBR, Licia Maria Henrique da Mota, enfatiza a importância do referenciamento adequado e do contrarreferenciamento, para garantir que pacientes controlados não precisem de consultas frequentes em serviços especializados.
O Ministério da Saúde, informado sobre as considerações dos especialistas, destaca o aumento significativo dos investimentos na Atenção Primária à Saúde, que saltaram de R$ 35,3 bilhões em 2022 para R$ 54,1 bilhões em 2024, ampliando a cobertura para cerca de 70% da população. Segundo o órgão, a atenção primária não só inclui médicos de família e comunidade, mas também integra protocolos de qualificação profissional e ações para acompanhamento de doenças crônicas, contribuindo para a redução do tempo de espera e o aprimoramento da jornada do paciente.



