Argentina enfrenta pressão cambial e risco de recessão a menos de um mês das eleições legislativas
A Argentina vive um momento crítico às vésperas das eleições legislativas de 26 de outubro, com forte pressão sobre o câmbio, sinais claros de recessão e uma crescente instabilidade política. Esse cenário tem aumentado a cautela entre investidores, que já registram desaceleração nos ativos do país após o chamado “efeito Milei” perder força.
Pressão cambial e fragilidade das reservas
O Banco Central da Argentina (BCRA) realizou uma intervenção cambial, vendendo US$ 53 milhões em reservas após o dólar oficial no mercado atacadista ultrapassar o teto da banda cambial, cotado a 1.474,5 pesos. O Bradesco BBI alerta para a fragilidade do sistema cambial argentino, que conta com apenas cerca de US$ 22 bilhões em reservas livres e enfrenta apenas 26 sessões antes das eleições para controlar a volatilidade. O banco detalha três possíveis estratégias para intervenção: a conservadora, que suavizaria oscilações com cerca de US$ 1,3 bilhão; uma postura moderada, com US$ 150 milhões diários; e a agressiva, que queima US$ 300 milhões por dia, arriscando o esgotamento rápido das reservas e consequências eleitorais graves.
Além disso, vencimentos de dívidas em pesos podem aumentar a liquidez local, pressionando ainda mais a demanda por dólares, enquanto incertezas cambiais tendem a acelerar importações e atrasar exportações, elevando os riscos de novos choques no mercado.
Economia argentina à beira da recessão técnica
Segundo o JPMorgan, o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre registrou queda em relação ao trimestre anterior, eliminando parte do avanço de 3,5% anualizado no primeiro trimestre e configurando um possível caminho para a recessão técnica — queda em dois trimestres consecutivos. As perspectivas para o terceiro trimestre são ainda piores, com indicadores de julho e agosto indicando retração mais aguda. A derrota governista nas eleições provinciais de Buenos Aires intensificou o risco político, agravando a incerteza econômica.
O Itaú BBA também ressalta sinais de enfraquecimento, com queda trimestral de 0,1% do PIB, recuo no consumo privado (-1,1%), investimento fixo (-0,5%) e retração em indústria e construção. A confiança do consumidor caiu 13,9% entre julho e agosto, refletindo piora nas perspectivas econômicas e maior aversão a compras duráveis e crédito, que quase parou devido aos juros elevados. Esses fatores ampliam o risco de o crescimento projetado para 2025, de 5%, não se concretizar.
Instabilidade política amplia incertezas
No campo político, o governo de Javier Milei anunciou aumento nos gastos com aposentadorias, saúde e educação, revendo a austeridade para tentar recuperar apoio após derrota nas eleições provinciais. Apesar disso, o Congresso mantém controle fragmentado, rejeitando vetos presidenciais em temas sensíveis como saúde e universidades, evidenciando um realinhamento político adverso ao Executivo.
Também pesa negativamente sobre a popularidade do governo um escândalo de corrupção envolvendo Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral, elevando a rejeição popular a níveis recordes.
Impactos para o mercado e perspectivas para investidores
Os preços dos títulos soberanos argentinos recuaram ao menor nível em um ano nesta quinta-feira, sinalizando o aumento da aversão dos investidores a ativos locais. A recomendação do Bradesco BBI é de cautela, privilegiando empresas ligadas ao setor de energia e exportações, menos expostas à volatilidade cambial e ao consumo doméstico.
O JPMorgan alerta que será fundamental reconstruir as reservas internacionais após as eleições, já que a tendência atual é de redução contínua até o pleito. Para o Itaú BBA, a combinação de juros altos, crédito travado e confiança em queda projeta um cenário cada vez mais desfavorável para a economia doméstica, elevando o risco de recessão em 2025 se não houver mudanças significativas.



